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O trabalho com questões étnico-raciais dentro da sala de aula como exercício de cidadania

 

O Dia da Consciência Negra deve estimular o aprofundamento da discussão do tema do racismo para além da simples celebração de uma data em particular. O mesmo raciocínio se coloca no âmbito da formação escolar numa sociedade ainda marcada pela desigualdade e pela violência. Os problemas do racismo e da identidade étnica e racial são geralmente trabalhados de modo superficial e pontual pelas escolas de ensino fundamental e médio, o que dificulta o envolvimento dos estudantes, e a percepção de que se tratam de questões históricas e estruturais da sociedade, presentes em todos os aspectos de suas vidas. Ao tratar do racismo somente no plano do combate às discriminações e ofensas raciais mais explícitas, o problema muitas vezes acaba sendo limitado e ofuscado pela questão do “bullying”. No entanto, o bullying não explica por que a polícia mata mais negros do que brancos, não explica por que os negros têm menos acesso à educação, saúde, seguridade e menos respeito pelo Estado do que os brancos; não explica por que recebem salários menores que os brancos, ainda que no mesmo ofício; não elucida por que estão super-representados nas prisões, não explica a dificuldade na apuração de casos de sequestro e de desaparecimento de jovens sob tutela policial, como o caso de Lucas Eduardo Martins dos Santos, ou por que  a história negra foi apagada e sua cultura desvalorizada ou criminalizada.

Ao tanto os limites do tratamento dessas questões pelas escolas, quanto as recorrentes reproduções de racismo no cotidiano dessas instituições, além de atividades de monitoramento de direitos humanos que denunciam práticas de racismo nas relações interpessoais e com as instituições, o Projeto Observatório de Direitos Humanos em Escolas (PODHE) – projeto de educação do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo  – tem realizado ao longo de todo o ano escolar oficinas com enfoque na construção e incentivo ao partilhamento de referências familiares dos estudantes das escolas públicas com as quais trabalha, a maioria negros. Com atividades lúdicas, plásticas, de costura, contações de história, grafismos no rosto e vivências musicais convidamos os estudantes a reconhecer traços e presenças de culturas afro brasileiras e de povos originários em nosso linguajar coloquial, brincadeiras, refeições, vestuário. O objetivo é que também pudessem se sentir à vontade para desvendar sua ancestralidade, dando importância às histórias trazidas por familiares e aquelas que eles teriam a contar, fortalecendo sua auto-estima como um ingrediente de reabilitação e resistência diante do racismo estrutural.

É necessário que as questões étnico-raciais sejam trabalhadas durante todo o ano letivo e de modo transversal em todas as matérias do ensino fundamental e médio, de modo apropriado às diferentes idades, grupos e fases de desenvolvimento. Sem essa abordagem contínua, e sem envolver os estudantes, comunidades escolares, universidade e movimentos sociais e culturais, o termo “consciência negra” dificilmente deixará de ser meras palavras gravadas no chão ou nas paredes das escolas.