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Encontro Internacional de Pesquisa discutiu “procedural justice” e legitimidade

Na semana de 18 a 22 de abril o NEV recebeu os pesquisadores Ben Bradford, da Oxford University e Jonathan Jackson, da London School of Economics. Eles participaram de uma série de reuniões internas nas quais discutiram os rumos e metodologia da pesquisa em curso. Também realizaram palestras externas ao NEV (veja a cobertura em http://twitter.com/nevusp). Bradford falou na terça, dia 19, para alunos de pós-graduação na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas sobre “Public support for violent policing: Legitimacy, social identity and acceptance of the use of force”. Em parceria com o Centro de Estudos da Metrópole (CEM), na série Metodológicas, Jackson realizou o seminário “Latent Variable and Structural Equation Modelling” no dia 20, também na FFLCH.

Sobre os pesquisadores

Ben Bradford

O pesquisador Ben Bradford


Ben Bradford
é Diretor da Pós Graduação do departamento de Criminologia da Universidade de Oxford e se concentra nas questões sobre confiança e legitimidade e como isso se aplica à polícia e ao sistema de justiça criminal de uma forma mais ampla.

Acesse aqui as publicações do pesquisador

Jonathan Jackson é professor de Metodologia e membro do Mannheim Centre for Criminology na London School of Economics. Seu próximo livro está no prelo: Routledge Handbook of Criminal Justice Ethics. “É uma coletânea de capítulos por agentes legais, pesquisadores clínicos, peritos, criminológos, psicólogos. O objetivo é entender alguns dos princípios morais e éticos relacionados à justiça criminal e suscitar um debate sobre a natureza da lei, o obedecimento da lei, as instituições legais. Traz diversas pessoas de muitas áreas. É bem interdisciplinar e é um agrupamento de diversas pesquisas sendo realizadas em campos diversos sob o guarda-chuva da justiça. Eu tento reunir todos esses debates”, nos contou o autor. 

Jonathan Jackson

Jonathan Jackson

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Conversamos com Bradford e Jackson sobre a contribuição da pesquisa do NEV no campo da legitimidade e outras questões. Confira:

Bradford:  Eu diria que uma das coisas mais interessantes que pode surgir desta pesquisa  é o nível em que essa associação muito comum entre justeza procedimental (procedural justice) e legitimidade pode ser encontrado no contexto brasileiro. 

Em um país como o Reino Unido, por exemplo, a justeza procedimental se conecta com a legitimidade porque a polícia representa um grupo social que as pessoas consideram importante. Então quando as pessoas são protegidas pela polícia, elas se sentem pertencentes a esse grupo, sentem que possuem status nesse grupo, e isso as motiva a agir dentro da lei.

Essa ideia se relaciona com a concepção de que a polícia representa um grupo da sociedade que um grande número de pessoas considera importante ou significativo. É possível que, no Brasil, a polícia represente apenas uma camada muito específica da sociedade. E as pessoas que não pertencem a essa camada não possuem uma relação de confiança com a polícia. Isso sugere que aqui a justeza procedimental não seria tão eficiente para a legitimidade quanto no Reino Unido. Mas suspeito que até nem acharei esse tipo de relação que mencionei, e então será importante reconsiderar nossas teorias e repensar sobre a justeza procedimental projetando legitimidade em uma sociedade fragmentada e altamente diversa como no Brasil

Jackson: No meu trabalho na Inglaterra, EUA e Austrália, a legitimidade se conecta com a disposição das pessoas de cooperar porque existe a ideia de que a polícia age de uma maneira legítima. Deste modo, as pessoas se sentem motivadas a obedecer leis.  No Brasil, as pessoas não obedecem leis por seus valores morais, mas sim por medo de ir a julgamento. E isso pode elucidar a necessidade da polícia de agir de uma maneira mais legítima e justa e menos agressiva e segregacionista.

Isso pode gerar uma implicação no debate da elaboração de políticas públicas?

Jackson: Sim. Quais as formas de policiamento que temos no Brasil? Assim podemos discutir qual o tipo de justiça criminal que podemos ter. Essa discussão se estende até aos tipos de polícia que existem. E isso se reflete no comportamento do brasileiro ao cooperar com a polícia, ao obedecer leis.

Bradford: (Com o debate) Espera-se persuadir a polícia de que a melhor maneira de influenciar o comportamento de quem você está policiando não é pela força bruta, mas a partir do convencimento de que o que você faz é um trabalho moral e justo. As polícias de muitos países acreditam que a melhor maneira de influenciar o cidadão policiado é através da força bruta, da coerção, violência. E esse, na verdade, é o pior jeito de fazer as pessoas cooperarem. A melhor maneira é tratá-los com justiça, e usar a persuasão como ferramenta.

Para os estudantes que queiram saber mais sobre a metodologia que você aplica – variáveis latentes e modelos de equações estruturais-  por onde devem começar?

Jackson: A melhor maneira que aconselho é fazer um curso. Indico os seguintes livros e o curso de verão da London School of Economics: 

Analysis of Multivariate Social Science Data

Measuring Intelligence: Facts and Fallacies


Confiança e legitimidade é necessariamente um campo interdisciplinar?

Bradford: Com certeza. Quando se trabalha com criminologia, você trabalha com diversos campos do saber, como Psicologia, Sociologia. Você precisa desses conhecimentos para entender o relacionamento da polícia com o público. Você precisa trazer várias vozes à mesa.