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38 dos 93 distritos de SP têm taxa de homicídios acima de 10 por 100 mil

Em um ano, número sobe; quase metade dos DPs têm alta no tipo de crime. Cidade, no entanto, registra queda no índice e sai de patamar ‘endêmico’.

Thiago Reis e Kleber Tomaz Do G1, em São Paulo

 

Apesar de a cidade de São Paulo ter registrado queda na taxa de homicídios e saído do patamar de violência considerado “endêmico”, o número de distritos com índice de assassinatos igual ou maior que 10 a cada 100 mil habitantes cresceu em um ano. Eram 37, e agora são 38. É o que mostra um levantamento do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP com base nos dados da Secretaria da Segurança, obtido pelo G1.

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), locais com índices iguais ou superiores a 10 são tidos como zonas endêmicas de violência (veja o mapa com os índices de todos os distritos da capital).

O levantamento mostra ainda que, em 2014, quase metade dos distritos teve aumento na taxa de assassinatos: 44 dos 93. Outros quatro mantiveram a mesma taxa; 45 tiveram queda.
São Paulo teve 1.130 casos de homicídios dolosos (quando há a intenção de matar) em 2014 – pouco menos que os 1.161 de 2013. Somados todos os distritos, essa é apenas a segunda vez, desde 1991, que o índice geral da cidade fica dentro do tolerável: 9,8. De acordo com o Estudo Global sobre Homicídios, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano passado, entretanto, a média mundial é de 6,2 por 100 mil pessoas. Só 24 distritos de São Paulo (1/4 do total) têm um índice abaixo.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo diz que “a cidade é uma das capitais com menor taxa de homicídios no país e que nenhum município paulista faz parte dos rankings mais recentes de cidades mais violentas do mundo, divulgados pelo Escritório sobre Drogas e Crime das Nações Unidas e pela ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal, ao contrário de outras cidades brasileiras e norteamericanas”.

Para o professor da FGV e vice-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, a taxa de São Paulo, no entanto, está longe de ser adequada em “termos civilizatórios”. “Comparada com outras cidades do país, a taxa é até baixa. Mas a gente ainda tem uma lição de casa gigante para fazer, para diminuir os conflitos. E isso é percebido ao analisar as taxas de outros locais do mundo.” Sobre o aumento de casos em quase metade dos distritos, o especialista em segurança diz que a violência é “desigualmente distribuída na cidade, da mesma maneira que vários outros fenômenos, como a taxa de ocupação, a educação e a saúde”.

O sociólogo e pesquisador do NEV Marcelo Batista Nery concorda. “A diferença entre os distritos está relacionada a um aspecto importante que é a heterogeneidade da cidade como um todo, em consequência dos fenômenos que acontecem em São Paulo.” Ele diz, entretanto, que “em um contexto de baixas taxas, uma única ocorrência tem um impacto grande” e ressalta que o mais importante é verificar uma tendência ao longo de anos para que a análise seja mais apurada.

O estudo do NEV considera o número de casos de homicídios, e não o total de mortes – um boletim de ocorrência pode representar mais de uma vítima. É o mesmo método adotado pela Secretaria da Segurança. Em 2014, apesar de terem sido registrados 1.130 casos, 1.196 pessoas morreram. O levantamento não considera os dados de homicídios de delegacias especializadas, como delegacias da Mulher e da Infância e Juventude. De acordo com o NEV, o objetivo do estudo é analisar os dados por distrito, e os casos registrados nestas delegacias podem ser de qualquer parte da cidade. Só dois casos (com duas mortes), no entanto, foram registrados em delegacias especializadas na cidade em 2014.

No levantamento, também não estão incluídos os latrocínios (roubos seguidos de morte). A cidade teve 147 casos em 2014 – ante 140 em 2013.

 

Extremos

Boa parte dos distritos com aumento na taxa de homicídios está concentrada nos extremos do município, como Jaçanã e Vila Brasilândia (na Zona Norte) e Cidade A E Carvalho e Guaianazes (na Zona Leste).

Para Renato Sérgio de Lima, “as regiões com as maiores taxas são também as mais precárias, onde o Estado não se faz presente em sua totalidade”. “Por que regiões com taxas altas e com crescimento não conseguem se beneficiar do movimento de queda? Há vários fatores, como o domínio de facções, variáveis socioeconômicas como piores condições de emprego e renda. A cidade é uma construção político-administrativa que não guarda relação com o fenômeno em si da violência. O território do crime é, muitas vezes, um bairro, um quarteirão.”

 

Vila Formosa

A região do 58º DP, em Vila Formosa, a única a não registrar nenhum homicídio em 2013, teve no ano passado cinco assassinatos e viu a taxa pular de 0 para 7,6 a cada 100 mil.

A pensionista Dulce Alves dos Santos, de 60 anos, é mãe de uma das vítimas do súbito aumento de casos no bairro. Em 8 de maio de 2014, Alessandra Antero Correia, então com 32 anos, foi morta dentro do cemitério da Vila Formosa. “Ela foi estuprada, quebraram o pescoço, abriram a cabeça da minha filha, arrastaram minha filha nas pedras do cemitério. Saíram arrastando ela e amarraram na árvore”, conta Dulce, viúva e mãe de outros oito filhos, em entrevista ao G1. Apesar de o caso ter sido registrado inicialmente como homicídio qualificado no distrito da Vila Formosa, ele hoje é investigado pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). “Não tem conclusão nenhuma o caso da minha filha”, desabafa a pensionista. O crime está prestes a completar um ano. “Deram para a gente até o dia 2 de maio para ter uma resposta, e estou esperando.”

À época, um namorado de Alessandra e o amigo dele chegaram a ser detidos pela polícia, que tinha suspeitas do possível envolvimento dos dois no crime. Eles acabaram liberados por falta de provas. A vítima tinha o hábito de ir ao cemitério da Vila Formosa para levar flores ao túmulo de uma amiga, morta de causas naturais. O local fica a 10 km de distância da casa onde morava com a mãe e os irmãos.

Com problemas mentais, Alessandra não trabalhava e se dedicava a cuidar de seus bichos de pelúcia e cantar com as sobrinhas. “Apesar da idade, era como se fosse uma criança”, diz Dulce. Foi no cemitério que Alessandra conheceu o namorado, filho de uma jardineira. Funcionários ouvidos pelo G1 dizem se lembrar do crime. Segundo eles, muitas pessoas pulam o muro do local para usar drogas ou fazer sexo. Alessandra foi encontrada morta pela manhã. Estava seminua, amarrada pela própria blusa numa árvore do cemitério. Tinha sinais de violência sexual e ferimentos na cabeça e no rosto. Os investigadores deduziram que ela foi arrastada porque havia ferimentos compatíveis na sua barriga. O DHPP afirma que já foram identificados quatro suspeitos do crime e que foram solicitadas a quebra do sigilo telefônico de Alessandra e a realização de exame de confronto de DNA entre as amostras fornecidas pelos suspeitos com as da vítima. O DHPP diz aguardar os resultados.

Sobre o aumento de assassinatos na Vila Formosa, o delegado Calixto Calil Filho, titular do 58º DP, diz que tem intensificado as operações na região para combater o crime. São realizadas reuniões mensais no Conseg, onde são feitos mapeamentos das áreas mais críticas para intensificar o trabalho policial nesses locais, informa, por meio de nota da Secretaria da Segurança Pública. O delegado destaca ainda que, no primeiro bimestre deste ano, não foi registrado nenhum homicídio na região.

 

Taxa zero

Dos 93 distritos policiais da capital, apenas dois não registraram nem um homicídio sequer em 2014: Parque da Moóca, na Zona Leste, e Campo Grande, na Zona Sul. Já Itaquera, palco da Copa do Mundo em São Paulo, foi o 2º distrito com a maior queda na taxa em um ano, só atrás da Sé. A Secretaria da Segurança Pública diz que o índice geral da cidade, de 9,8 a cada 100 mil, representa uma queda de 4,3% em relação à taxa de 10,27 homicídios por 100 mil habitantes de 2013. “O índice é resultado de esforços constantes para reduzir as mortes intencionais e representa uma queda de 80% desde 2001”, informa, em nota.

 

16/04/2015 06h40 – Atualizado em 16/04/2015 12h07

 

Fonte: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/04/38-dos-93-dos-distritos-de-sp-tem-taxa-de-homicidios-acima-de-10-por-100-mil.html